Em 2026, a inteligência artificial generativa deixou de ser uma curiosidade tecnológica para se tornar uma ferramenta de produção em empresas brasileiras de todos os portes. Mas a distribuição dessa adoção é profundamente desigual — e os dados disponíveis sugerem que a tecnologia pode estar aprofundando, não reduzindo, as assimetrias existentes no mercado de trabalho e entre regiões.
Uma pesquisa conduzida pelo Nexo Digital em parceria com o Centro de Pesquisa em Tecnologia e Sociedade da FGV ouviu 1.200 empresas brasileiras entre março e maio de 2026. Os resultados mostram que 67% das empresas com mais de 500 funcionários já usam alguma ferramenta de IA generativa em processos de negócio. Entre micro e pequenas empresas, esse número cai para 18%.
Quem está na frente
Os setores financeiro, de tecnologia e de consultoria lideram a adoção. Bancos e fintechs usam IA generativa principalmente para atendimento ao cliente, análise de crédito e geração de relatórios. Empresas de tecnologia integram modelos de linguagem em seus produtos. Consultorias usam para análise de documentos e geração de propostas.
A concentração geográfica é marcante: 78% das empresas que reportaram uso intensivo de IA generativa estão localizadas em São Paulo, Rio de Janeiro ou no Distrito Federal. No Norte e Nordeste, a adoção é incipiente — menos de 8% das empresas consultadas nessas regiões.
"Estamos criando uma nova divisão digital. Não é mais entre quem tem acesso à internet e quem não tem — é entre quem tem capacidade de usar IA de forma produtiva e quem não tem. E essa divisão está se aprofundando mais rápido do que conseguimos medir."
— Dra. Carla Nunes, pesquisadora, FGV CPTS
O problema da qualificação
A principal barreira para adoção não é o custo das ferramentas — a maioria das soluções de IA generativa tem versões acessíveis ou gratuitas. O problema é a qualificação. Usar IA generativa de forma produtiva requer habilidades que vão além de saber digitar um prompt: entender os limites da tecnologia, verificar outputs, integrar ferramentas em fluxos de trabalho existentes.
Segundo a pesquisa, apenas 31% das empresas que adotaram IA generativa ofereceram treinamento formal aos funcionários. A maioria deixou que os trabalhadores aprendessem por conta própria — o que favorece os que já têm mais familiaridade com tecnologia e mais tempo disponível para aprender.
Impacto no mercado de trabalho
O debate sobre IA e emprego no Brasil ainda é dominado por projeções catastróficas de substituição em massa. Os dados disponíveis sugerem um quadro mais complexo: automação de tarefas específicas, não de empregos inteiros; aumento de produtividade em algumas funções; e criação de novas demandas por habilidades que o sistema educacional ainda não está preparado para fornecer.
O que parece claro é que a transição não será neutra. Trabalhadores com menor escolaridade, em setores de baixa tecnologia e fora dos grandes centros urbanos têm menor capacidade de se adaptar — e menos redes de suporte quando a adaptação falha.