O Brasil tem dezenas de projetos que se autodenominam "cidades inteligentes". Mas o que significa, na prática, uma cidade ser inteligente? E quantos desses projetos realmente funcionam? Uma análise conduzida pelo Nexo Digital examinou 12 iniciativas de smart city em capitais e cidades médias brasileiras, com base em documentos públicos, entrevistas com gestores e dados de desempenho.

O resultado é desanimador: apenas 3 dos 12 projetos analisados podem ser considerados bem-sucedidos por critérios objetivos — ou seja, implementados em escala, com impacto mensurável e continuidade além de uma gestão municipal. Os outros 9 ficaram no papel, foram descontinuados após mudança de governo, ou existem apenas como projetos-piloto sem perspectiva de expansão.

O que os projetos bem-sucedidos têm em comum

Os três casos de sucesso identificados — o sistema de mobilidade urbana de Curitiba, o programa de iluminação inteligente de Belo Horizonte e a plataforma de dados abertos de Porto Alegre — compartilham características importantes.

Primeiro, todos foram construídos sobre infraestrutura pública existente, não dependendo de parcerias com empresas privadas para funcionar. Segundo, todos têm modelos de governança claros, com responsabilidade definida e mecanismos de prestação de contas. Terceiro, todos sobreviveram a pelo menos duas trocas de gestão municipal.

"O problema não é a tecnologia. A tecnologia para fazer uma cidade inteligente existe e está disponível. O problema é a governança — quem é responsável, quem paga, quem decide quando o prefeito muda. Sem resolver isso, qualquer projeto vai morrer na praia."
— Prof. Rodrigo Pinheiro, urbanista, FAU-USP

O papel das empresas de tecnologia

Muitos dos projetos fracassados foram iniciados em parceria com grandes empresas de tecnologia — nacionais e multinacionais — que ofereceram soluções proprietárias com contratos de longo prazo. Quando as gestões municipais mudaram, os novos prefeitos frequentemente encontraram sistemas que não podiam modificar, dados que não podiam acessar e contratos que não podiam cancelar sem multas pesadas.

"É o problema do lock-in tecnológico aplicado ao setor público", explica Ana Beatriz Costa, do Nexo Digital. "A cidade fica refém de um fornecedor, e a inteligência que deveria ser da cidade fica com a empresa."

O caminho à frente

Os especialistas consultados convergem em algumas recomendações: priorizar soluções baseadas em padrões abertos; construir capacidade técnica interna nas prefeituras; e tratar dados urbanos como bem público, não como ativo privado de empresas de tecnologia.

O Ministério das Cidades lançou em 2025 um programa nacional de cidades inteligentes com essas diretrizes. É cedo para avaliar os resultados — mas a mudança de abordagem é promissora.